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O impacto de Cannes no cinema da Amazônia

A região foi representada no festival francês através de Isabela Catão, atriz do filme ‘Motel Destino’, e do documentário ‘A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami’. Cine Set, site especializado em cinema de Manaus, foi à Riviera Francesa para cobrir a mostra internacional. Na imagem acima, cena do filme cearense “Motel Destino”, com a atriz Isabela Catão (AM), e Iago Xavier (CE) (Foto: reprodução).

Manaus (AM) – A Amazônia foi representada no Festival de Cannes, realizado de 14 a 25 de maio na França, através de participações expressivas e marcantes para a região. Em “Motel Destino”, do cineasta cearense Karim Aïnouz, que disputou a Palma de Ouro na 77ª edição do festival, a atriz amazonense Isabela Catão brilhou na tela de uma das maiores e mais prestigiadas mostras de cinema do mundo. Ela saiu de Manaus rumo à Riviera Francesa para acompanhar a exibição do longa-metragem, que não foi premiado, mas conquistou sete minutos de aplausos do público.

Formada em teatro pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Isabela começou a carreira no Atêlie 23, grupo de artes cênicas manauara. Migrou para o audiovisual e se tornou um dos principais nomes e rostos do cinema amazonense da última década.

Protagonizou o premiado curta-metragem “O Barco e o Rio“, de Bernardo Ale Abinader, ganhador de cinco Kikitos no Festival de Gramado 2020. Seu currículo, uma referência para outros artistas da região, inclui ainda obras como “Alexandrina – Um Relâmpago”, de Keila Sankofa, “Terra Nova”, de Diego Bauer, e “Cabana”, da diretora Adriana de Faria, rodado no Pará e vencedor do Festival do Rio em 2023.

A atriz repetiu o feito do também amazonense Adanilo, que ano passado esteve em Cannes com “Eureka“, longa-metragem do diretor argentino Lisandro Alonso, exibido fora de competição. Em entrevista à Amazônia Real, ela afirmou que considera a presença da Amazônia em Cannes a consequência de “um trabalho coletivo e de muita responsabilidade com o cinema”.

“O Festival de Cannes é uma grande janela para que pessoas de diferentes lugares do mundo conheçam o nosso trabalho. Para mim, como atriz manauara, sendo acolhida pelo cinema cearense, tem a ver com compartilhar com artistas maravilhosos uma experiência única e possível de perceber que esses lugares também podem ser ocupados por nós”, diz.

Equipe do Filme “Motel Destino”, indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2024 ( Foto: cedida, arquivo pessoal).

A longa bateria de testes para “Motel Destino” levou a atriz a concorrer com mais de 500 atores e atrizes. Uma vez selecionada, partiu para o município de Beberibe, no interior do Ceará, onde a produção foi filmada. Sua motivação para compor o elenco do filme partiu da vontade de trabalhar com Aïnouz e sua sensibilidade cinematográfica. “O trabalho dele fala sobre mulheres e ele tem uma forma muito sensível de enxergar as nossas histórias”,  descreve.

Com caminhos traçados no cinema e no teatro do Amazonas, mas agora conectada com outras regiões, como o Ceará, Isabela agarra as oportunidades conquistadas por artistas da Amazônia.

“É muito difícil permanecer como atriz não só na minha cidade, mas no Brasil”, analisa. Ela quer trabalhar em seu ofício e contar histórias para além dos estereótipos.

Para a atriz, é uma luta constante permanecer trabalhando com cinema na Amazônia devido à falta de acesso à estrutura e de financiamento adequados. O cinema da região ainda precisa lutar para ter espaço nos grandes festivais mundiais.

“Eu só gostaria que não fosse tão difícil para nós. Existe o lado B do ofício, a frustração por conta da falta de acesso, falta de estrutura”, explica.

Atriz amazonense Isabela Catão (Foto: Lucas Silva/Secom).

Em relação à expansão da carreira de outros atores e atrizes da Amazônia, ela ressalta que, apesar da existência de inúmeros talentos no cinema amazonense, falta investimento em políticas públicas para que os projetos saiam do papel.

“Em Manaus existem profissionais incríveis, talentosos e com muita vontade de fazer, mas também com a vontade de ser reconhecido.  A gente quer ser mais valorizado financeiramente e ter uma estrutura melhor de trabalho. A gente se iguala a qualquer outra parte do Brasil, mas precisa de condições melhores de trabalho e investimentos em políticas públicas para que o artista consiga permanecer”.

Cobertura do jornalismo cultural amazônico

Para celebrar 10 anos de existência, um dos sites de crítica cinematográfica mais relevantes do Brasil, o Cine Set, de Manaus, retornou à mostra internacional para uma cobertura especial neste ano, comandada pela jornalista Camila Henriques. Único veículo de comunicação do Norte do Brasil credenciado para a cobertura das exibições, o site já havia participado da edição de 2017 do evento. 

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Camila Henriques correspondente do Cine Set, junto ao Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes ( Foto: Reprodução Cine Set).

“O Cine Set voltar a Cannes foi muito especial por celebrar a nossa trajetória de uma década e mostrar que o jornalismo cultural dessa região tão diversa e vasta não pode ficar de fora de um evento mundial tão importante como Cannes. Acredito que seja uma forma de a gente marcar território e estimular que outras iniciativas voltadas ao jornalismo cultural e crítica de cinema aconteçam não apenas em Manaus ou no Amazonas, mas nos demais estados nortistas”, diz Caio Pimenta, editor-chefe e fundador do site.

O alcance do Cine Set no maior festival não acontece por acaso. A trajetória do site independente inclui participação ativa no cenário do audiovisual amazônico e brasileiro, por meio de apoio a festivais de cinema da região, como o Olhar do Norte, e nas críticas dos filmes locais. A ideia é continuar fomentando a participação na cobertura de Cannes nos próximos anos.

Estúdio Cine Set/ Sonoraplay durante o 5º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte ( Foto: Robert Coelho).

Sobre o impacto de Cannes para a arte cinematográfica da Amazônia, Caio Pimenta afirma que o mundo do cinema tem um viés progressista, especialmente o europeu. Sendo assim, pautas como a preservação ambiental e os povos originários sempre chamam a atenção.

“Não foi à toa as escolhas de ‘A Queda do Céu’ [2024] e ‘A Flor do Buriti’ [2023]. Quanto a Adanilo e Isabela Catão, observo como eles são dois atores dos mais promissores e com carreiras em trajetórias ascendentes dentro do cinema brasileiro e mundial. Acredito que veremos mais deles não apenas em Cannes, mas também em Veneza e Berlim em breve. É certeza que muitos cineastas e diretores brasileiros e internacionais estão de olho em ambos”.

A perspectiva do Cine Set para o futuro do cinema da Amazônia, é que as obras locais possam se destacar nos grandes festivais internacionais. Para isso, no entanto, é preciso investimento e “um olhar sério e profissional para a cultura”. Projetos como os longas de “O Barco e o Rio” e “Obeso Mórbido”, apoiados pela Lei Paulo Gustavo, podem levar o cinema amazonense a lugares que, hoje, parecem distantes, acredita Caio.

“Apesar da valorização trazida pelo governo Lula, a cultura e, consequentemente, o cinema ainda são pouco valorizados pela classe política e a sociedade como um todo. Há sempre um risco de retrocessos das políticas públicas voltadas para o setor. Talentos, entretanto, não faltam na Amazônia de modo geral, com uma nova geração de diretores, roteiristas, atores, produtores e equipes técnicas altamente qualificadas”, diz.

Luta e cosmologia Yanomami 

Exibição do longa “A queda do Céu”, em Cannes na competição Quinzaine des Cinéastes ( Foto: Soraya Ursine/ Primeiro Plano).

O Festival de Cannes recebeu, na mostra paralela Quinzena de Cineastas. a exibição do documentário “A Queda do Céu”, rodado na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e baseado no livro lançado em 2010, originalmente em francês, “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami”, que reúne reflexões do maior líder e xamã do povo Yanomami, Davi Kopenawa, contadas ao antropólogo francês Bruce Albert, sobre o contato de seu povo com os não indígenas desde os anos 1960.

Dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, o documentário foca na cosmologia Yanomami como fio condutor de um diálogo entre o mundo indígena e não-indígena. Davi Kopenawa é o narrador. E, em sua longa missão de ecoar a luta Yanomami contra a devastação do seu território pelo mundo, compareceu à estreia, no domingo (19). O filme foi selecionado pela mostra Quinzena dos Realizadores, paralela ao Festival.

Davi Kopenawa, liderança do povo Yanomami (Foto Lucas Landau/ISA).

“Nós tivemos um pensamento, com a nova geração, de fazer um filme e mostrar para vocês que não conhecem a realidade, a alma do Brasil, a alma da montanha, a alma da terra. Vocês não conhecem a nossa cultura e a nossa terra-planeta que o povo Yanomami cuidou. Eu sou a sobrevivência do meu povo”, discursou a liderança na cerimônia.

No final de janeiro, uma nota técnica da Hutukara Associação Yanomami denunciou que a crise humanitária continua na Terra Indígena, apesar das medidas emergenciais adotadas pelo governo Lula no início de 2023. Com novas estratégias, garimpeiros avançam na exploração ilegal no território. Essas estratégias, aliadas a uma desarticulação nas ações de combate por parte do governo federal, provocam efeitos nocivos à população Yanomami.

Para os diretores, o filme é a expressão cinematográfica de uma relação de arrebatamento que tiveram ao viver em carne, osso e espírito os sete anos de relação com Davi e os Yanomami. “É um filme onde a câmera não olha só para os Yanomami, mas para nós não indígenas também”, afirmam.

Nos últimos anos foram mostradas pelo mundo muitas imagens dos Yanomami em sofrimento, nessa grave crise sanitária e humanitária. O filme aborda essas questões, mas não deixa de trazer também as imagens dos Yanomami em sua potência e beleza. 

O desejo é que a cultura Yanomami seja vista como viva, contemporânea e florescente, além de questionar a cultura dos brancos a partir de uma perspectiva xamânica e de uma geopolítica contracolonial. 

“O filme trata de uma relação inegável entre os Yanomami e os nape – nós, os brancos. Então, não se trata somente de mostrar a luta e a cultura Yanomami, mas também a cultura de destruição e exploração vigente naqueles que Davi chama tão precisamente de ‘povo da mercadoria’. São essas visões de mundo,  de imagem e de cinema que estão em debate. Nos parece muito forte que tenham sido colocadas em debate em um festival como Cannes”, argumentam.

A Queda do Céu, filme brasileiro realizado com o povo Yanomami, é selecionado para participar da Quinzena de Cineastas de Cannes (Foto: Aruac Filmes Divulgação).

A pré-produção do filme começou em 2017, a partir do primeiro contato com o livro ainda durante o processo de outro trabalho, também realizado na Amazônia pelos diretores, a peça teatral “Altamira 2042”, criada a partir do testemunho do rio Xingu sobre a barragem de Belo Monte, no Pará. 

Foram quatro anos de pesquisa, elaboração de roteiro e pré-produção antes da filmagem de “A Queda do Céu”. Por meio de três eixos fundamentais do livro (Convite, Diagnóstico e Alerta), a obra cinematográfica apresenta a cosmologia do povo Yanomami, o mundo dos espíritos Xapiri pë, o trabalho dos xamãs para segurar o céu e curar o mundo das doenças produzidas pelos não-indígenas, o garimpo ilegal, o cerco promovido pelo povo da mercadoria e a vingança da Terra.

As filmagens duraram pouco mais de um mês e contaram com a composição de uma equipe híbrida de Yanomamis e não-indígenas. Cineastas Yanomami integraram a equipe de fotografia, som e produção do filme. Além da produção da Aruac Filmes, o documentário conta com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), co-produção da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Stemal Entertainment com Rai Cinema e produção associada de Les Films d’ici. 

O filme chega a registrar a mais importante cerimônia dos Yanomami, o Reahu, ritual funerário que reúne centenas de parentes dos falecidos com a finalidade de apagar todos os rastros daquele que se foi e assim colocá-lo em esquecimento. O ritual foi filmado na comunidade de Watorikɨ, região do Demini, na Terra Indígena Yanomami.

“Tudo se transformou com nossa experiência das filmagens junto aos Yanomami durante a festa Reahu em Watoriki. Foi uma experiência de profunda confiança e respeito, e também radical e transformadora. Nas filmagens, fomos muito mais levados pelos Yanomami e provocados pelo roteiro da festa Reahu e pela linguagem estética desta cerimónia, que em larga medida desafia nossa compreensão de cinema a se expandir”, dizem os diretores.

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