Parintins

Festival do Mocambo fecha 16ª edição ganhando ‘corpo’ de olho no futuro

Os artistas dos bumbás trabalham por amor, em uma comunidade que nasceu como quilombo e agora vira referência cultural (Foto: Euzivaldo Queiroz)

O Festival Folclórico do Mocambo do Arari é a extensão da genialidade do parintinense. Um filho da Ilha Tupinambarana que ainda é desconhecido por muitos, mas que a cada ano que passa se desenvolve, ganha corpo de gente grande e status de um dos eventos mais legais do interior do Amazonas. Iniciada no último dia 26, a festa segue até este domingo, marcada por disputas de quadrilhas, pássaros e dos bumbás Espalha Emoção e Touro Branco.

O Festival ainda é um adolescente atrevido, daqueles que não se importam em dizer aos quatro cantos do mundo que são mocambenses, sim senhor! Ou até mais jovens, como o pequeno grande talento Pierre Cardoso, que aos 11 anos de idade impressiona ao ser o animador de galera do Boi Touro Branco. Ou jovens senhores como o sorridente Edivaldo Caldeira, o “Baruka”, de 37 anos, fundador do Boi Espalha Emoção.

A localidade já tinha vocação para ser diferente e expandida: seu nascimento foi a partir de um quilombo no século passado, daí o nome Mocambo. O local ainda é considerado, até certo ponto, “escondido”: a chegada se dá em média, a partir do Porto de Parintins (a 325 quilómetros de Manaus) por uma viagem com duração de 4 horas por barco ou de 1h30 de embarcação a jato.

Do número desconhecido de afro-descendentes que formaram o quilombo, a comunidade virou distrito de Parintins e, hoje, conta com 8 mil habitantes. A pesca é a fonte de renda para boa parte da população do local cujo padroeiro é São João Batista. Quase que a totalidade das casas é de madeira, bem como as cercas. É como Parintins de um tempo sem carros: só motos e bicicletas. Pacata, de pessoas de passos calmos, sem pressa, que ao final da tarde se sentam na frente das suas casas para apreciar a passagem de outros.

Mocambo é a Parintins que voltou no tempo de um boi de uma cidade calma. Mas, diferente do Festival conhecido internacionalmente, tem a particularidade de apostar mais no que vem da floresta, de forma sustentável, como dizem seus artistas. No Mocambo, palha é palha, o cipó é trançado, a casca de madeira que ninguém usa e às vezes pisa se transforma em alegoria, bem como as folhas e a madeira pau-a-pique.

Por amor

A festa que movimenta a cidade envolve trabalhadores que atuam nas associações folclóricas sem receber nenhum tostão, de graça, porque gostam. Um futuro pagamento seria mais recompensador a quem sua a camisa para criar estruturas alegóricas grandiosas extraídas lateralmente da natureza.

Criação

O Festival Folclórico do Mocambo do Arari nasceu em 2003 a partir do momento em que a Igreja Católica proibiu a participação de brincadeira bovinas de Caprichoso e Garantido nas festividades em louvor a São João Batista, padroeiro do distrito.

A proibição da Igreja foi motivada por um motivo bastante curioso: uma mulher chamada Dilenilza esqueceu de limpar seu rosto que estava pintado com motivos tribais na hora de ir ao batizado. Chegando à celebração, o padre notou que a moça esqueceu de limpar o rosto pintado e, por conta disso, proibiu as festas de boi nos arraiais (na época, o Boi de Parintins que ganhasse fazia sua festa da vitória no Mocambo).

Com o tempo foram surgindo o Espalha Emoção (que antes era conhecido como “Espalha Merda” por ter origem cômica) e o Touro Branco. E a cultura de fazer as alegorias com matérias-primas como o pau-a-pique, cascas de árvores, cipó, juta, etc. O auxiliar de saneamento em Parintins, Alair Nunes Reis, fez parte da comissão idealizadora do Festival do Mocambo

“Verificamos que havia a possibilidade de organizar o evento. Depois caí a campo para realizar o evento junto com outras pessoas. Do meu bolso paguei os primeiros troféus e as premiações e o pessoal tratava da organização. Antes o Mocambódromo era de madeira. Em 5 de julho de 2003, às 16h30 as arquibancadas estavam lotadas como em Parintins, onde as pessoas chegam cedo. Não pensávamos que chegaria a tudo isso. Mas ficamos contentes pela dimensão que está, por todo processo que houve”, conta o integrante da comissão fundadora.

Para ele, é uma alegria muito grande pensar que o Festival chegou a esse patamar. “Neste ano passei uma semana antes do Festival aqui no Mocambo e vi a quantidade de pessoas vindo aqui para o evento. Só gostaria que os representantes dos bois criassem uma associação para se registrarem para viabilizar patrocínio privado”, disse o fundador.

Paulo André Nunes/PORTAL A CRÍTICA

https://ojornaldailha.com/festival-do-mocambo-fecha-16a-edicao-ganhando-corpo-de-olho-no-futuro/

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