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Ex-morador de rua tem vida restaurada em Itacoatiara e procura pela família

“Ele não fala nada sobre si. Aliás, quase nem fala, mas nos entende quando falamos com ele”, relata a secretária da prelazia de Itacoatiara, Joelma Rolim, sobre Jonilson, o homem mora há quase 30 anos pelas ruas do município de Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus, e que teve a vida restaurada pelo projeto social desenvolvido pela prelazia

O homem é mais conhecido pelos moradores da cidade por um apelido, o ‘Cagado’, se você já o viu, irá se surpreender com esta história e ficará comovido.

Há aproximadamente quatro meses, a Casa de Passagem da prelazia de Itacoatiara, lugar de hospedagem a pessoas que chegam do interior e que também é usado para cuidados a pessoas viciadas em álcool e drogas, vem atendendo Jonilson, o ex-morador de rua.

À princípio, segundo a secretária, os planos eram para que o homem ficasse na casa por três meses, pois esse é o máximo que o instituto consegue manter uma pessoa com recursos próprios. No entanto, o projeto teve que ser mudado por um motivo: Jonilson não consegue lembrar o nome completo, algo que vem prejudicando a procura por sua família.

Os indícios é que Jonilson sofra da doença do esquecimento, o Alzheimer, que pode ter sido causada devido ao excesso de álcool no corpo, conforme alertam especialistas da área da saúde. Para eles, a perda de memória pode ser causada devido a ingestão em grande quantidade de álcool, caso estudado há pouco mais de 20 anos por pesquisadores britânicos.

Mas, quem é Jonilson? E por que ele não lembra mais de seu nome completo e de sua família? Aliás, por que ninguém da sua família, em tantos anos, procurou por ele?

O Amazonas1 foi atrás de pessoas que poderiam ter convivido com ele antes dele virar um morador de rua e entrar para o mundo das drogas.

A vida antes das drogas
A professora aposentada, Dona Suzeth Maciel, 78, disse ter conhecido Jonilson antes dele ser morador de rua e se viciar em bebidas alcoólicas e drogas. Segundo ela, o homem vivia mais ao interior do Amazonas, próximo as comunidades do Rio Arari, em Itacoatiara, há aproximadamente 40 anos. Lá, ele morava em uma casa simples, humilde e ainda de madeira, mas não há informações se a família vivia com ele.

Durante a semana, ele era professor de matemática e amava tanto a profissão de ensinar, que se disponibilizava aos finais de semana para ministrar aulas de catequese, da Igreja Católica da comunidade.

Os anos foram passando e a vida de Jonilson mudou por completo. De acordo com relatos de diversos moradores de Itacoatiara, ele apareceu no município perambulando pelas ruas pedindo ‘esmola’. Não se sabe como ele surgiu na cidade e nem em que ano, somente que ele mora na região há aproximadamente três décadas.

O dinheiro que ele pedia, era usado na maioria das vezes para comprar bebidas alcoólicas, mas há quem o via comprando drogas e poucas são as vezes que o dinheiro era usado para comida.

No princípio, ele costumava conversar com a população. Dona Suzeth explica que a prosa com Jonilson era sempre proveitosa, pois ele tinha a fala bonita e era perceptível a inteligência oriunda de seus anos como educador. Fato confirmado por outros itacoatiarenses que também conversaram com o ex-morador de rua antes dele esquecer de seu nome completo.

Ajuda humanitária
A Associação Dom Jorge Marskell, entidade sem fins lucrativos, fundada em 2001 em homenagem às ações do Bispo Dom Jorge Marskell (falecido há 21 anos), em Itacoatiara, desenvolve há alguns anos projetos para comunidades ribeirinhas, incentivando a educação, cultura, esporte, além de levar o conhecimento católico a todos, vem trabalhando, também, com ações em prol de pessoas que vivem em situação de rua.

Unindo-se a causa dos mais necessitados, a prelazia do município, junto a entidade, intensificou ajuda humanitária para pessoas em situação de rua desde a chegada do novo bispo da cidade, Dom José Ionilton, natural de Araci, interior da Bahia.

“Tomei conhecimento do projeto em setembro de 2017, pouco tempo após eu chegar no município. Convoquei uma reunião com algumas entidades e decidimos somar força para ampliar a ajuda a essas pessoas e incentivar que mais pessoas participem. Desde lá, surgiu a vontade de ter um lugar para, em caso de emergência, pudéssemos acolher essas pessoas. Por exemplo, em uma noite de muita chuva, elas poderiam vir para o abrigo e se protegerem da água. Mas, até agora ainda não conseguimos concretizar esse sonho”, explicou o bispo ao Amazonas1. Ele solicita apoio de órgãos competentes.

“Então nós temos esses casos e sabemos que essas pessoas precisam de cuidados médicos e assistência social. Nós levamos, todas as noites de segunda à sexta-feira, alimentos para os moradores de rua. Tentamos conversar com eles e saber um pouco de sua história para conseguir ajudá-los a reencontrarem suas famílias. Nesse período de dois anos, já conseguimos ajudar quatro pessoas”, disse.

Reviravolta e preocupação
Além de fornecer alimento, a prelazia também dá atenção e cuidados médicos sempre que vê necessidade e disponibiliza dormitórios. Desde maio, Jonilson passou a morar na Casa de Passagem da prelazia de Itacoatiara e deixou de ingerir álcool, mas ainda é motivo de preocupação.

“Ele foi encontrado com o fêmur quebrado e foi preciso que realizasse uma cirurgia em Manaus. Feito isso, voltou a Itacoatiara e nos preocupamos com seu futuro, pois, onde ele iria morar? Era preciso que tomássemos uma atitude, pois sabíamos que ele voltaria para a rua e não conseguiria cuidar da saúde. Com isso, passou a morar aqui na cúria e passou a receber apoio nosso, da associação e de voluntários”, disse Dom Ionilton.

Apesar da recuperação ser boa, segundo a avaliação médica, a igreja diz que o ex-morador de rua ainda não consegue falar. Quando é tentado iniciar uma conversa com Jonilson, ele não responde, mas não age de forma agressiva. O Amazonas1também tentou falar com ele, sem sucesso.

Em dois anos como bispo em Itacoatiara, mais de 20 pessoas já foram ajudadas pela igreja que conta com o auxílio de 30 a 40 voluntários. O caso mais preocupante, é o do Jonilson, que só consegue dizer o seu nome em raras vezes que pronuncia uma palavra. Ele é mantido na cúria por meio de doações e recursos próprios da igreja.

“Além da recuperação da cirurgia, se sente que ele também passa por outro processo de recuperação. Ele é um dos que não consegue falar, não se expressa, mas com a convivência que vem tendo conosco e com as demais pessoas, já consegue balbuciar algumas palavras. E a gente tem um sonho de que ele recupere as memórias para que nós possamos encontrar sua família”, completou o bispo.

Dúvidas quanto ao nome
Dom Ionilton explicou à reportagem que não é certo que o nome Jonilson seja de fato do ex-morador de rua, pois, não há nenhum registro e nenhum documento.
Então de onde veio o nome?
Em 2018, o homem foi operado mais uma vez e quando solicitado, por uma equipe médica, que ele escrevesse seu nome em um papel, ele rabiscou ‘Jonilson’. Nessa busca por uma referência para encontrar seu nome verdadeiro e a família, o bispo conta que não há informações precisas, mas ainda há esperança.

Esperança
“Compartilhamos em grupos no whatsapp para saber se encontramos alguém da família, mas sem sucesso. Porém, uma pessoa disse conheceu um Jonilson em uma escola há anos atrás e que se parecia com ele. Nós fomos atrás dessa escola e de fato há três Jonilsons que teria estudado lá. Solicitamos da instituição o nome completo deles e de informações das famílias.

A Associação Dom Jorge Marskell conseguiu o endereço dessas famílias e agora é aguardar para saber se realmente se trata da mesma pessoa”, disse.

Enquanto a família de Jonilson ainda não é encontrada, o bispo conta que a prelazia vem cuidando dele e atiçando sua fala. Por exemplo, hoje já é possível que ele indique que quer comer, tomar café, algo comemorado por todos.

“Nós estamos pedindo a Secretaria de Saúde e a outros órgãos para que forneçam ajuda psiquiátrica e psicológica para que a recuperação dele seja melhor”, pediu Dom Ionilton.

Para quem tiver informações sobre sua família ou quiser ajudar com doações de alimentos ou em dinheiro, a Prelazia de Itacoatiara disponibiliza o contato (92) 3521-4913/3299 – ou (92) 99351-3309, ou compareça ao endereço rua Barão do Rio Branco, 251, Centro.

Fonte: Amazonas 1

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