Vir à tona – Por Max Diniz Cruzeiro

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Vir à tona é algo que estava represado ou enclausurado no inconsciente e passa a vir de forma translúcida na consciência humana, geralmente um movimento traumático que houve uma necessidade de ser arquivado no fundo da inconsciência, a fim de que ele não viesse a emergir, dado que iria desencadear muita dor psíquica.

Quando alguém tenta redescobrir o seu passado, essa pessoa acaba por colocar na mente uma infinidade de registros, vistos como recordações que em um dado momento chegou a fazer sentido para o indivíduo. Algumas recordações são positivas e trazem boas sensações, outras porém têm conteúdos muito densos e carregados de sentimentos que provocam reações negativas o reviver da cena em um indivíduo.

Trazer uma imagem do passado para a superfície da mente pode ser algo angustiante, para isto psicólogos e psicanalistas fazem um grande trabalho de ajustar as sensações, percepções e sentimentos que afloram destes registros que são lançados novamente no consciente, depois de meses e até mesmo anos de não expressão das informações.

O indivíduo que traz algo do seu passado para o presente, tem que estar preparado para a carga de energia que é liberada em certos setores do cérebro humano, a rotina de produção de pensamentos, sai do momento presente e mergulha no vínculo descoberto do passado, o regime de urgência de um indivíduo é por um instante interrompido, e o indivíduo passa a se conectar com registros antigos que foram previamente arquivados.

Então acontece neste momento um breve lapso temporal, onde a mente do indivíduo se transporta para o momento em que o trauma ou o sentimento fora despertado. E a consequência natural é a entrada de um transe superficial onde o indivíduo tenta reviver a cena passada que teve um significado expressivo para esta pessoa.

Como uma ponte, uma infinidade de coisas conexas e desconexas que não foram absolutamente resolvidas dentro do seu tempo, passa e emergir e esse vir à tona, é suficiente para causar um certo torpor no indivíduo que lança um processo de recordação em sua mente. Neste momento deve o analista fazer um bom manejo da cena a fim de provocar menor conflito e ajustar as necessidades atuais do indivíduo dentro do que o relato de sua manifestação psíquica sinaliza para que ele volte a entrar em homeostase cerebral.

Neuro cirurgião Max Diniz Cruzeiro (DF)

Neste interstício, em que o indivíduo sai da cena presente e mergulha em seu passado, é o momento ideal para que seja feita a intervenção necessária para que o presente deste indivíduo seja ajustado, e a sua dor psíquica represada aliviada devido a correção procedural de seu mecanismo racional por intermédio da racionalização dos fatos ocorridos como uma elucidação que está distante da realidade mais momentânea deste indivíduo.

O próximo passo seguinte quando uma recordação vem à tona é devolver a temporalidade presente ao indivíduo dentro do equilíbrio dinâmico cerebral desejado, para que ele possa usufruir a informação do passado, do presente e suas aspirações futuras dentro de um regramento que não venha a causar dor psíquica ou a despertar novos traumas em virtude da migração do seu trauma passado para outros instanciamentos cerebrais.

Esse processo pode ser muito prazeroso quando se está diante de um álbum de família e se tem a imagem de pessoas queridas que fizeram algum sentido no passado de uma vida. A subjetividade dos momentos vividos registrados dentro do álbum leva um tipo de satisfação e contentamento que é possível trazer boas sensações e sentimentos que foram muito fortes e despertados na época em que os fatos foram desencadeados.

Por outro lado quando o fato represado é algo muito denso e carregado, pode ser que uma ativação de um sentimento de ressentimento possa trazer à memória uma infinidade de recordações negativas e causar uma ampliação do atrito entre as partes, e muita coisa ser colocada através da verbalização da fala em que as pessoas comecem a se ferir mutualmente, e a tenderem a afastar os laços que reforçam o relacionamento e a interatividade entre as partes.

De vez em quando os processos mnêmicos devem ser trabalhados de forma que informações do passado antes ignoradas devam vir à tona como uma forma de ajudar no processo de tomada de decisão. Porque a força da experiência e a força da experimentação pode deixar valiosos arquivos que façam um indivíduo refletir antes que sua decisão definitiva seja colocada nas vias de expressão.

Trabalhar com cada recordação seja ela presente ou passado, requer uma habilidade de não gerar um conflito temporal, a fim de que cada impressão seja alocada em sua posição adequada. E os registros possam ser utilizados sem a necessidade de despertar dor psíquica, ou avançar o conflito interno dentro de um indivíduo.

A força da pulsão que libera um sentimento, sensação ou registro de pensamento pode causar uma representação além da medida do sentimento que se relativiza na sua forma atual. Isto resulta em um processo de muita cautela quando alguém deseja expor seus pensamentos para outra pessoa, porque o seu cérebro não está demasiadamente preparado para suportar o conflito temporal.

Por isto o sensato é sempre medir bem as palavras, para depois não se arrepender e ter que deslocar mais esse fluxo de massa de pensamentos para a parte inconsciente da mente, para que novamente haja necessidade no futuro de uma relativização para suportar a dor da ausência, a dor da perda, do ressentimento e os laços que se formam com eventos depressivos.

É preciso saber emergir aquilo que liberta, que gera benefícios para o indivíduo, no tempo certo que se esteja preparado o suficiente, numa maturidade que faça o sentido da vida caminhar paralelo com o desenvolvimento. Porque existem bons pensamentos e recordações que merecem vir à tona.

Fraternalmente,

Max Diniz Cruzeiro

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