Universidade, instrumento de mudança – Por Osíris Silva

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Uma das definições de desenvolvimento econômico com a qual me identifico diz respeito ao processo pelo qual a sociedade percorre o caminho que lhe é inerente percorrer, pelo qual “desenvolve” suas potencialidades, desenvolve o que já no início contém, mas só em germe, e cuja realização é por princípio o seu objetivo máximo. Para o economista norte-americano W.W. Rostow desenvolvimento é um processo incremental (incremental, observe-se, cumulativo) e relaciona-se estritamente com o esforço econômico, político e social advindo do interior da sociedade. Rostow desenvolveu sua teoria no famoso livro “Estágios do Crescimento Econômico” (The Stages of Economic Growth”), de 1960, que todo economista bem formado certamente o leu.
Para Rostow, as sociedades – no decorrer do processo de evolução econômica -, passam por cinco etapas diferentes e sequenciais, determinantes do estado de progresso socioeconômico vigente: a sociedade tradicional (traditional society), as pré-condições para a arranco (transitional stage), o arranco (take off), a marcha para a maturidade (drive to maturity) e a era do consumo de massa (high mass consumption). Para ele o fator político, e mais especificamente o ideal nacionalista, é considerado preponderante na efetiva transição da sociedade tradicional para uma sociedade moderna.

Resta saber, no correr do século XXI em que estágio encontra-se o Brasil, qual a fase hoje experimentada pelo Amazonas e a Amazônia.

O desenvolvimento relaciona-se a processos dinâmicos configurativos de rupturas das condições econômicas vigentes. Conseguintemente, subjaz ao desejo e à determinação clara e irrestrita da sociedade de querer efetivamente se desenvolver. Uma condição essencial. Sem a manifestação expressa dessa vontade qualquer esforço nesse sentido haverá de ser vão.

A Amazônia avança aos solavancos nesse campo fundamentalmente devido à carência de ações estruturadas e ajustadas às idiossincrasias, às características próprias da região. Em última instância, a responsabilidade pela progressão do processo, penso eu, cabe inelutavelmente à universidade, como instrumento de mudança; aos centros de pesquisa ajustadas a políticas públicas formuladas com responsabilidade e substância teórica sólida.

Escritor e economista Osíris/Foto: Divulgação

Para a professora da Ufam Marilene Correia da Silva Freitas, “a Amazônia é uma região continental e mundial que, ao ser abordada pelas diversas linguagens científicas representa-se em conceitos e teorias postas em perspectiva por cada campo disciplinar. Esse conhecimento não é o do mercado nem substitui as tarefas da política e da economia”. Efetivamente, salienta, “dialoga com essas esferas da realidade simultaneamente produzindo ideias e conhecimento e os traduzindo na imaginação científica”.

Para Freitas torna-se fundamental a produção científica contida em livros propositivos, que permitem debater eficazmente a região e enfrentar os grandes desafios que são postos para o mundo: deslocamentos populacionais, modelos econômicos, relação ciência-sociedade, sustentabilidade, cultura e ambiente, paradigmas teóricos, agendas científicas e de intervenção política, etc.”.

Por consequência, políticas públicas, desenvolvimento humano, sustentabilidade em construção por meio de modelos integrados à cultura e ao ambiente são outros eixos desafiadores. Marilene de Freitas enxerga, nessa perspectiva, quatro dificuldades estruturais: 1) o capitalismo não tem meios para propor modelo sustentável, não predatório. Esse limite não é ideológico é técnico; 2) o Brasil e suas instituições nacionais não compreendem nem propõem intervenção maciça e centrada na relação natureza, cultura (integradora dos saberes dos povos e suas tradições) e sociedade; 3) o desafio de financiar a Amazônia persiste; 4) a integração continental e regional (pan-amazônica) não avança, está parada, e praticamente interrompida por dinâmicas políticas e econômicas divergentes.

Como afirmou o general Rodrigo Otávio, ex-comandante do CMA: “Árdua é a missão de desenvolver e defender a Amazônia; muito mais difícil, porém, foi a de nossos antepassados de conquistá-la e mantê-la”.

Pensemos a respeito.

Manaus, 25 de setembro de 2017.

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