Suplementação à base de cálcio ajuda a prevenir a pré-eclâmpsia

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A suplementação à base de cálcio, em baixas doses, está se mostrando um forte aliado na prevenção da pré-eclâmpsia. A doença surge durante a gestação, em algumas mulheres, e acontece quando a pressão sobe subitamente, a ponto de provocar edema cerebral, convulsão e levar a mulher ao coma, se não houver tratamento.

Na gravidez as mulheres têm três vezes mais chances de desenvolver a pré-eclâmpsia se for adolescente, primeira gestação, apresentar ganho de peso em excesso ou idade acima de 35 anos.

Os sintomas principais são: dor de cabeça constante na nuca, oscilação da pressão arterial (sobe e desce), dor de cabeça, pés e mãos inchados e dor no estômago. Se a gestante apresentar esses sintomas tem que fazer o exame de urina, que é o primeiro passo, para verificar a proteinúria (presença de proteína na urina). O exame pode ser realizado na Unidade Básica de Saúde (UBS) por meio do teste rápido.

Foto: EBS profissional/Shutterstock

Prevenção – A pesquisa desenvolvida com apoio do Governo do Amazonas por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) no âmbito do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUs) analisa a efetividade de ações para prevenção da pré-eclâmpsia.

O projeto começou em 2014 com previsão de término em 2017. O trabalho vem sendo realizado dentro da proposta da Rede Cegonha em Manaus. A pesquisa conta com uma amostra de 1020 mulheres com idade a partir de 12 anos, as quais recebem acompanhamento a partir da 16ª semana de gestação, ou seja, a partir do quarto mês, quando é feito as coletas, intervenções e orientações necessárias.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e cadastrado no banco de dados de registros e resultados de estudos clínicos com humanos, plataforma Clinical Trial.gov. O estudo é o maior do Brasil, os resultados estão sendo esperados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Falta de diretrizes – Segundo a pesquisadora Celsa Souza, a OMS recomenda o consumo de 900 a 1500mg/dia de suplementação de cálcio para populações com dietas pobres em Ca, porém ainda não existem diretrizes do Ministério da Saúde sobre esta questão. Esta prática não está implementada em nosso meio devido a diversos fatores. Em Manaus, as mulheres em idade fértil, em média, consomem 490mg/dia, de acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar, realizada em 2009.

Celsa disse que o cálcio é um dilatador, a suplementação de cálcio, em baixas doses, é capaz de dilatar essa artéria, consequentemente, ajuda a prevenir a pré-eclâmpsia. Entretanto, a grávida uma vez acometida com a síndrome só é possível fazer o tratamento para não evolução da doença, que tem vários estágios.

“Por isso que é possível contribuir com a redução do índice de pré-eclâmpsia, se o consumo de cálcio atingir o mínimo de 900mg/dia de cálcio por essas mulheres”, diz a pesquisadora.

Estágios – Doutoranda do curso de Medicina Interna e Terapêutica/ Saúde Baseada em Evidências/Escola de Medicina/Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a pesquisadora disse que com o estudo espera-se diminuir em até 50% o índice de mulheres com pré-eclâmpsia, e informou que a OMS já validou o instrumento e a pesquisa.

“No final desse estudo vamos verificar a efetividade ou não da suplementação, poderemos dizer se 500mg é suficiente para as gestantes. O estudo tem vários estágios, desde a Unidade Básica de Saúde (UBS) até a maternidade. Existe o acompanhamento da grávida na UBS, depois analisamos o desfecho dela na maternidade por meio dos prontuários. O nosso projeto é um ensaio clínico cluster em 10 UBS em diferentes zonas distritais de saúde conforme o tamanho populacional de cada área. Em cada distrito de saúde nós temos no mínimo duas unidades com intuito de verificar a efetividade da prática educativa e a suplementação”, contou a pesquisadora.

Funcionamento do projeto – Dentro da proposta da Rede Cegonha, os membros da pesquisa em parceira com os profissionais das UBS, realizam ações educativas com diversos temas direcionados a prevenção de pré-eclâmpsia com os grupos de grávidas que realizam o pré-natal, normalmente. A nova caderneta da gestante mostra que a grávida tem que fazer pelo menos três atividades educativas com o objetivo de diminuir os índices de mortalidade.

Na pesquisa existem dois grupos de trabalhos; um recebe as ações educativas para o consumo de alimentos com fontes de cálcio, alimentação saudável e a orientação para controlar o ganho de peso em excesso. O outro grupo recebe a suplementação com 500mg de cálcio em formato de pastilhas e mais as ações educativas propostas dentro da Rede Cegonha.

“Vários temas com metodologias padronizadas são abordados para que todas as grávidas possam acompanhar e entender, tais como: os dez passos para uma alimentação saúde na gravidez e o ganho de peso; os sintomas e riscos da pré-eclâmpsia; alimentos fontes de cálcio e outros nutrientes que podem ser encontrados na nossa região”, diz a pesquisadora.

Resultados parciais – Segundo Celsa os resultados parciais do projeto demonstram que o peso das gestantes que iniciaram a pesquisa é semelhante aos dados da pesquisa do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), em 2015, em que 50% das mulheres na fase adulta estão acima do peso em Manaus. O risco disso é que a mulher que engravida obesa, por exemplo, tem cinco vezes mais chance de desenvolver uma síndrome hipertensiva, como a pré-eclâmpsia, segundo estudos de revisões sistemáticas, realizado em 2016.

“Hoje, quando suplementamos 1g de cálcio, a grávida começa a ter vários sintomas, como enjoo, constipação muito intensa, com isso muitas grávidas deixam de consumir. O que nós estamos verificando, que com uma dosagem menor, junto com a orientação nutricional e práticas educativas, ela consegue essa dosagem de 1000mg ao longo do dia. A suplementação é em pastilhas que a gestante deve consumir antes de dormir. As gestantes que realizam o pré-natal nas unidades básicas randomizadas no estudo recebem uma caixinha com a suplementação. A pastilha é manipulada, nós fomos buscar uma forma para que ela consumisse e não apresentasse tanta alteração gastrointestinal, porque no período da gravidez ela fica mais sensível e tem várias alterações gastrointestinais, nosso intuito é que a grávida não enjoe por isso a pastilha tem o sabor de menta”, contou.

O projeto é desenvolvido com apoio da Fapeam em parceria com o Ministério da Saúde, OMS, Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Unifesp.

“Se não tivesse o apoio da Fapeam essa pesquisa teria dificuldade para ser executada, pois os insumos como a suplementação apresentam custos altos diante da amostra necessária para desenvolver um ensaio clínico dessa dimensão. A ideia é que a proposta possa futuramente ser utilizada no Sistema Único de Saúde. A fórmula da pastilha de cálcio é uma ideia da OMS com a contribuição da doutora Maria Regina Torloni e Ana Pilar, que são especialistas em síndromes hipertensivas, uma do Brasil e a outra de Genebra. Nesse projeto nós temos um doutorado, uma especialização e dois Pibics. Temos estudantes de Medicina, Enfermagem, Educação Física e nutrição”, conta a pesquisadora.

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