Seu Amadeu: exemplo além da vida

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Manaus – Na última terça-feira, o futebol amazonense se despediu da lenda Amadeu Teixeira. Carinhosamente chamado de ‘seu Amadeu’, o ex-treinador e dirigente dedicou sua vida ao América, clube que foi o seu grande amor.

Ao total, foram seis títulos estaduais, sendo um tetracampeonato, de 1951 a 1954. Além dessa marca, seu Amadeu deixou na história do futebol e esporte local os seus ensinamentos e caráter, que influenciaram a vida de muitos que tiveram o prazer de conviver com o ‘senhor do boné vermelho’.

Após um intervalo de 15 anos, ex-técnico Amadeu Teixeira voltou a ver o América ser campeão estadual, em 2009 (Foto: Danilo Mello/Arquivo Diário)

Aos 91 anos, Amadeu Teixeira estava internado desde o último dia 6 de setembro, no hospital Unimed, no Parque das Laranjeiras, zona centro-sul da capital. No dia 10 de setembro, seu Amadeu precisou ser transferido para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), após ser submetido a uma drenagem pulmonar. Mas sem mostrar melhoras no quadro, o desportista morreu vítima de falências múltiplas dos órgãos.

Seu legado ficou marcado na história do Estado. Prova disso é que o seu velório foi realizado na Arena Poliesportiva que leva seu nome, na Avenida Constantino Nery, zona centro-oeste de Manaus.

Exemplo de honestidade. Esse foi um dos elogios que Teixeira recebeu durante a vida. Ex-administrador do extinto Estádio Vivaldo Lima, Ariovaldo Malízia conviveu muitos anos com seu Amadeu e presenciou momentos marcantes ao lado dele.

“Na época do programa Vale Lazer (década de 1990), os clubes tiravam proveito disso. Os dirigentes iam à Rua Marechal Theodoro (Centro), compravam muito vales e faziam o borderô dos jogos. O seu Amadeu nunca quis usufruir disso. Ele dizia que queria apenas o que a torcida do América tinha levado ou comprado de ingresso. Enquanto, os outros apresentavam 10 ou 20 mil, o seu Amadeu apresentava o número correto de vales. Isso mostra muito quem ele foi”, revelou.

Malízia afirmou que a gestão de Amadeu Teixeira no futebol impressionava. “Foi uma perda irreparável. Historicamente, o seu Amadeu viveu em função do esporte, não apenas do futebol. Ele era um ser humano correto. O meu convívio com ele no antigo Vivaldão foi espetacular, porque ele comungava com a minha mesma linha de pensamento quando o assunto era gestão do patrimônio público”, disse o ex-gestor do Vivaldo Lima.

Outra lenda do futebol amazonense, o técnico Aderbal Lana também viu momentos bons enfrentando o seu Amadeu nos estádios da capital. Para ele, o ‘ícone’ Amadeu Teixeira serve para ensinar a atual e a futura geração de apaixonados pelo esporte bretão. “Ele (Amadeu) sempre manteve uma equipe profissional nas competições. Nos últimos anos que ficou de fora. Ele é um ícone. Sempre fez tudo de coração. Isso deixa um legado. Ele ensinou como agir com amor. Sempre trabalhou, sempre esteve junto. Infelizmente, esteve muito perto de conseguir coisas melhores, mas não deu. Vamos sentir muita falta”, citou Lana.

Paizão

Diferente da maioria dos treinadores, Amadeu Teixeira tratava os seus jogadores com respeito e muito carinho. Exemplo disso é visto no relacionamento que o fundador do América teve com o ex-secretário Estadual de Juventude, Esporte e Lazer (Sejel), Fabrício Lima. Criado no América, o político, muito emocionado, explicou que seu Amadeu foi seu segundo pai.

“Perdi um pai. Tinha o sonho de ser jogador de futebol. Na época, os meninos que tinham condições iam para o Nacional ou Rio Negro. Eu, jogando um campeonato de escola, fui descoberto pelo então lateral-direito do América, Torres, que me levou para treinar no infantil. Fiquei no clube dos 12 até os 21 anos. Seu Amadeu me ensinou valores da vida. Me ensinou a torcer por um clube daqui”, disse Fabrício, que foi campeão amazonense pelo Mequinha atuando de meia ao lado de jogadores como Artur e Alberto.

Com seu Amadeu, Fabrício guarda lembranças do jeito abnegado do falecido técnico. Em uma delas, ele viu o ex-treinador voltando a pé para casa após dar seu vale-transporte para jogadores. “Parei de pedir vale-transporte do seu Amadeu quando o vi dando vale-transporte para todos os jogadores e indo andando para casa. Ele era tudo, até roupeiro. Me ensinou a botar água dentro da chuteira para ficar um pouco mais larga. São coisas que não vou esquecer. Me ensinou a partilhar o pouco que a gente tinha. De amar uma coisa de verdade”, citou Lima, que conversou com seu Amadeu uma semana antes de sua morte.

“Falei que o amava muito e agradeci por tudo. O Artur (filho do seu Amadeu) fez uma vídeo-chamada. Pude agradecer ao ‘Nego Velho’ por tudo. Hoje, sou pai e aprendi muito com ele. Lembro que fomos jogar no Gilbertão (em Manacapuru) e dormimos em uma delegacia, porque não tinha dinheiro para o hotel. O seu Amadeu sempre dava um jeito. Graças a Deus, não tirei o nome dele da Arena. Mas a maior homenagem que ele pode receber é o futebol amazonense voltar a ser como era antes ou, até mesmo, o América voltar a participar de competições”, disse Lima.

Marcante

O último grande ato do América foi também o mais dolorido na história do clube. Em 2010, dentro de campo, o Mequinha conquistou o acesso para a Série C do Brasileiro. Mas nos tribunais, o clube do seu Amadeu foi punido por escalar irregularmente o atleta Fofão numa partida contra o Madureira-RJ e ficou fora da competição nacional.

Diretor de futebol do América na época e atual presidente do Manaus FC, Giovanni Silva afirma que o fato foi a maior tristeza da lenda no futebol. “Dentro de campo, conseguimos uma alegria muito grande, mas depois, tivemos uma frustração muito grande. Após isso, ainda participamos do Amazonense de 2011, mas não tínhamos força. Fizemos por insistência do seu Amadeu. Mantemos o clube na primeira divisão, mas em 2012, por questão financeira, em uma reunião, o seu Amadeu resolveu dar um tempo no futebol. Hoje, o clube faz falta ao futebol profissional. Torço muito que, um dia, alguém consiga trazer de volta o clube”, disse o dirigente.

Atual presidente do América e neta de seu Amadeu, Bruna Parente afirma que a família nunca quis tirar o clube das competições. “Acho que vai demorar um bom tempo até entender tudo o que aconteceu. Não tem como esquecer um homem como o meu avô. O principal legado é o caráter. Da mesma forma que ele era fora de casa, ele era dentro. Ele ensinou muito mais do que futebol para todas as pessoas com quem conviveu e era assim com a gente, dentro de casa”, declarou.

Bruna também lamentou a a saída do América das competições profissionais. “Sempre existem especulações, nunca quisemos tirar o América de dentro do campo. Às vezes, fico até pensando que, se isso não tivesse acontecido, talvez, ele ainda estivesse aqui. Pelo América, ele era muito ativo”, finalizou a neta.

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