Entre amor e ódio, Horário de Verão começa neste domingo em três regiões do País

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Brasília – Enquanto parte do Brasil ajusta os ponteiros para o horário de verão, Edemira Colodetti, de 70 anos, nem esquenta a cabeça. É que na casa da aposentada as horas não andam para frente ou para trás só por causa de uma decisão do governo brasileiro. “O horário de verão é inventado pelo homem. Eu sigo o horário de Deus, da natureza.”

Com a mudança de hábitos dos brasileiros, é possível que esta seja a última vez que o Horário de Verão seja adotado no Brasil (Foto: EBC)

O Horário de Verão começa à 0h deste domingo (15), e os relógios deverão ser adiantados em uma hora para se adequar à medida. A população dos Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste deverá adiantar os relógios em uma hora e a mudança vai valer até o dia 18 de fevereiro de 2018. Nos Estados do Norte e do Nordeste não haverá mudança nos relógios.

É possível que esta seja a última vez que o Horário de Verão seja adotado no Brasil. Isso porque autoridades do setor elétrico constataram mudanças nos hábitos de consumo de energia dos brasileiros.

De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o que mais tem influenciado o horário de pico do consumo de energia não é mais a incidência de luz solar, e sim a temperatura.

Se por um lado boa parte da população se incomoda com as alterações que o Horário de Verão causa na rotina, por outro há muita gente que prefere chegar em casa ainda com a luz do dia. Gostando ou não da mudança, uma coisa é certa: ao alterar a rotina – em especial a hora de acordar e de dormir – o Horário de Verão mexe com o ritmo fisiológico de boa parte da população.

Tique-taque normal

Desde que o horário de verão passou a ser adotado anualmente, em 1985, Edemira se rebelou contra a convenção e, na casa onde mora com o marido, Jandyr Bellon, de 77 anos, de janeiro a janeiro os relógios seguem o tique-taque normal. Edemira mora na pequena localidade de Aracê, de pouco mais de 7 mil habitantes, que pertence ao município de Domingos Martins, no sul do Espírito Santo.

“Nunca coloquei no horário de verão. Às vezes, as visitas vêm e falam: ‘Peraí, mas ainda é esse horário?’ Aí eu já oriento que meu relógio está uma hora atrasado”, diz ela. “E eles almoçam no horário da gente”, conta Edemira, que ainda prepara a comida – os vegetais que ela mesma colhe no quintal – no antigo fogão à lenha.

A verdade é que, mesmo se ajustassem os ponteiros, Edemira e Jandyr ainda assim viveriam em outro tempo, que, de tão raro, os moradores das capitais têm até dificuldade de imaginar. Aposentado, Jandyr acorda às 3h30 e até as 10 horas já está almoçando. Janta às 16h30 da tarde e dorme com as galinhas.

Para Edemira, até os animais ficam confusos com as modernidades. “Antes, o galo só cantava às 2 horas. Agora, canta a qualquer hora, porque é muita lâmpada acesa”, reclama ela, que, apesar de gostar da vida simples na roça, já se rendeu ao WhatsApp e estica o dia para dormir só depois das 21 horas.

De opinião oposta, a administradora Carla Fazanelli é do time dos adoradores do horário de verão. “Gosto porque anoitece mais tarde, dá a impressão de que o dia está mais comprido”, diz ela, que criou uma página no Facebook sobre o assunto para dividir o amor que sente pela mudança anual.

Justificativa para a mudança,

Ao contrário de antes, quando o horário de pico do consumo de energia era influenciado pela luz solar, hoje é pela temperatura(Foto: EBC)

A justificativa para a adoção da medida ano após ano é o aproveitamento do maior período de luz solar para economizar energia elétrica. Em 2013, o país economizou R$ 405 milhões, ou 2.565 megawatts (MW), com a adoção do Horário de Verão. No ano seguinte, essa economia baixou para R$ 278 milhões (2.035 MW) e, em 2015 caiu ainda mais, para R$ 162 milhões. Em 2016, o valor economizado com Horário de Verão baixou novamente, para R$147,5 milhões.

Segundo o ONS, a redução na economia de energia com o Horário de Verão tem a ver com uma mudança no perfil e na composição da carga elétrica no País. Se antes o que determinava o horário de pico do consumo de energia era a incidência da luz solar, hoje é a temperatura. Com isso, o pico de consumo passou a ser entre 14h e 15h e não mais entre 17h e 20h.

Segundo o coordenador da Área de Regulação do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), Roberto Brandão, a mudança no perfil de consumo de energia também está relacionada ao uso de aparelhos de ar-condicionado, que costumam ser ligados nos horários mais quentes do dia; e, por outro lado, à substituição de lâmpadas incandescentes por modelos mais econômicos, o que reduz o gasto de energia com iluminação.

Por causa do ar-condicionado, o verão pode inclusive levar a um aumento na conta de luz dos consumidores, segundo o professor Reinaldo Castro Souza, do Departamento de Engenharia Industrial do Centro Técnico Científico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CTC/PUC Rio).

Um aparelho de ar-condicionado de mil watts de potência, por exemplo, se for ligado oito horas por dia, resulta em cerca de R$ 160 na fatura mensal, em média. Se o uso se estender para 16 horas por dia, o valor dobra, de acordo com o especialista.

Reavaliação

Em agosto, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), o ONS e o Ministério de Minas e Energia chegaram à conclusão que, por causa dessa mudança de perfil de consumo de energia, a adoção do Horário de Verão atualmente “traz resultados próximos à neutralidade para o consumidor brasileiro de energia elétrica, tanto em relação à economia de energia, quanto para a redução da demanda máxima do sistema”.

Apesar da indicação, o governo decidir manter o Horário de Verão este ano, mas para o período 2017/2018 a medida será reavaliada.

http://d24am.com/economia/entre-amor-e-odio-horario-de-verao-comeca-neste-domingo-em-tres-regioes-do-pais/

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