Dimetilaminofenildimetilpirazolona – Por Valdir Fachini

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Quem conheceu a Mariazinha, na época que eu a conheci, vai concordar comigo, ela era um piteuzinho, um doce de coco, uma fofura, todo adjetivo que se possa imaginar, ela era, a gente tinha quase a mesma idade, talvez eu fosse um ano mais velho que ela, treze para quatorze anos.
Mariazinha morava na mesma rua que eu, umas vinte casas acima da minha, a casa dela era a única assobradada, o único carro do bairro, era um fusca e era do pai dela, a única antena de televisão do pedaço, era na casa dela.

Talvez, por esses motivos, ela se tornasse mais bonita e cobiçada.

Mariazinha era o ponto de referência do lugar, quando alguém queria saber de algum endereço, a gente sempre dizia, é algumas casas depois da casa da Mariazinha, ou, na rua de traz da casa da Mariazinha, ou, tal pessoa é amiga da Mariazinha.

Eu era apaixonado por ela, mas ela nunca me deu bola e como eu era muito tímido, não sabia o que fazer para que ela me notasse, na época, o Tremendão fazia sucesso com uma música que dizia assim…….vou acabar ficando nu, para chamar sua atenção……Roberto e Erasmo, sabe que eu até pensei em fazer o mesmo, mas não tive coragem de pagar esse mico.

A molecada toda fazia alguma coisa que ela achava legal, cada um ganhava um prêmio, o Zé andava de bicicleta de costas e sempre ganhava um beijo no rosto, o Tião andava um quarteirão inteirinho plantando bananeira e ganhava dois beijos, um em cada lado do rosto, todos tinham o seu troféu, um sorriso, um aperto de mão, um abraço, qualquer coisa do tipo.

Articulista Valdir Fachini (SP)

Mas eu queria ganhar era o seu coração, só que eu era um molenga, um zero à esquerda, não sabia fazer nada, por isso não tinha direito a prêmio nenhum.

Uma tarde de muito sol, Mariazinha estava jogando peteca com as amigas lá na praça e o bestão aqui ficou um tempão admirando a menina, cada tapa que ela dava no brinquedo, meus olhos faiscavam de emoção, imaginando aquelas mãos me dando tapas de amor.

O sol me rachando a cuca e eu nem ligando.

A noite depois da janta, eu falei para a mãe que eu estava com dor de cabeça por causa do sol, ela me mandou deitar e me deu um comprimido de CIBALENA, eu tomei a pílula e fiquei lendo as letrinhas do envelope em que ela vinha, então descobri uma palavra compridona que eu nunca tinha visto antes, devia ser o nome de um componente do remédio.

Então eu pensei, vou aprender a falar essa palavrona, vou chegar perto dela e falar, ela vai me achar inteligente e vai gostar de mim, eu li e reli umas mil vezes até aprender, já estava na ponta da língua.

Eu já me via namorando com ela, noivando, depois casando e tendo um montão de filhos, cada um com o nome começando com uma sílaba daquela palavra, Dilermando, Mercedes, Tibúrcio, Laércio, seriam dezesseis barrigudinhos enchendo nossa casa de alegria.

Assim eu fiz, cheguei bem pertinho dela e tasquei a palavrona, fechei meus olhos e fiquei esperando meu beijo, não ganhei, só escutei um risinho, mas ela não estava rindo para mim, estava rindo de mim, peguei minha cara do chão e fui embora.

Desse dia em diante, minha paixão por ela foi diminuindo, enfraquecendo até acabar de vez, aquela palavra nunca mais eu falei, hoje quando fui escrever esse causo, eu tive que procurar no Google.

Agora eu acho graça da minha inocência, se fosse hoje, eu não perderia tanto tempo aprendendo aquela palavrona inútil, eu diria uma coisa muito mais eficaz, eu te amo.

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