Como Nossos Pais

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[Resenha/Crítica]: Como Nossos Pais Vavá Pereira | 26 de agosto de 2017 | 3 Comentários Compartilhar no Facebook

Gerenciando pensamentos.

“Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantada como uma nova invenção. Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão. Pois vejo vir vindo no vento, cheiro da nova estação. Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração.” Na letra da música Como Nossos Pais, de Belchior, a mudança é inevitável, e isso é bem o que Rosa está passando. Ela é uma mulher de seus trinta e poucos anos, casada, duas filhas, bom emprego, tem um irmão e seus pais são separados. Num almoço familiar de domingo, as situações parecem estar se tornando insuportáveis, não existindo meias palavras para o diálogo, e Rosa é a protagonista daquelas relações, tudo converge para a sua vida. Vê que seu marido lava louça na casa da mãe, mas não em sua casa e percebe que o prato do dia é em homenagem a seu esposo. Rosa sente que tudo o que acontece ao seu redor tem a ver consigo, mas o mecanismo dos acontecimentos precisa ser gerenciado para o bem comum, coisas precisam ser faladas, mudanças precisam acontecer. E sua mãe, num rompante, diz coisas sobre o seu passado, causando ainda mais confusão em seus pensamentos. Agora é a vez de Rosa. Sua antena está ligada. Pra viver bem e melhor, ela juntará o eu-família com o eu-mulher e buscará o melhor caminho a ser traçado. Voltando à música “o novo sempre vem”, os primeiros minutos de Como Nossos Pais serve para desenhar como a vida de Rosa é e como se desenrolará nos próximos momentos. São desentendimentos e descobertas que a levarão a um processo de autoconhecimento e uma busca incansável para perceber qual deve ser o seu papel na estrutura incansável que a vida é.

A atriz Maria Ribeiro, a protagonista, entendeu bem a proposta e entrega o seu melhor papel no cinema. Ela transmite a angústia de uma mulher que sente o peso de não ter sido a principal na vida de sua mãe e, por isso, hoje, bate de frente com ela, agora precisa entender o porquê disso. Sua vida profissional também não é lá essas coisas, sente que poderia ter sido diferente, mas mudanças podem acontecer. Na sua vida de casada, vivencia o fantasma da traição e sente o peso de cuidar das filhas sozinha, mesmo com o marido ao lado. E ainda precisa dar atenção, psicologicamente e monetariamente, ao pai. Maria Ribeiro é bastante natural em todos os aspectos de sua personagem. A emoção vem contida, mas vem. A sua Rosa tem momentos de explosão, e é bem parecida com a mulher de hoje em dia, é a mulher que está passando por mudanças, é a mulher que está aprendendo a jogar e não ser jogada. Os sentimentos de Rosa, de Maria Ribeiro, são sentimentos da maioria das mulheres que percebem que podem ser muito mais do que a sociedade patriarcal lhe impõe. E, aos poucos, mudanças estão por vir. Como Nossos Pais é filme para uma personagem, Rosa, e todos os outros estão ali para o seu real entendimento, todos eles fazem parte de um mosaico para Rosa receber, rebater e condensar a sua própria estrutura. E Maria Ribeiro bate um bolão com Clarice Abujamra, sua mãe no filme. As duas personagens vivem em eterno embate, e essa relação, de amor e ódio, é o que mais rege a história. Elas se entendem, ou não, do jeito que é permitido. Apenas um pedacinho da vida.

Laís Bodansky é uma mestra em contar situações, à primeira vista, minimalistas, mas que são gigantescas em seu teor humano. São vidas que se digladiam, o novo que não entende ou não aceita o antigo e vice-versa. São famílias que precisam se reafirmar, se aceitar e perceber que as diferenças sempre irão existir. Foi assim em Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade, As Melhores Coisas do Mundo e, agora, em Como Nossos Pais, com diálogos inspirados, com idas e vindas, trazendo em nós um pertencimento das situações. Bodansky fala de um mundo bem perto de nós, com a licença poética da arte, mas com tocante humanidade, amargura e, por que não, graça, pois o riso ainda é o que alivia as tensões do cotidiano, e esse riso vem pelo personagem de Jorge Mautner, que faz o pai, um eterno bom vivant, um homem que apenas curte a vida e mesmo dando trabalho à filha, é um homem que eleva o estado de ânimo dela. Como Nossos Pais é um pequeno estudo da mulher contemporânea, como vive e como quer viver, o que fazem com ela e como ela quer que façam e, principalmente, absorve os novos tempos em que a mulher já não é mais aquela ‘Amélia que era mulher de verdade’, mas sim a mulher em estado de evolução.

Nota do CD:

[Rating: 4.5/5]

Sinopse:Rosa é uma mulher que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Quanto mais tenta acertar, mais tem a sensação de estar errando. Filha de intelectuais dos anos 70 e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas duas gerações que exigem que ela seja engajada, moderna e onipresente, uma super mulher sem falhas nem vontades próprias. Rosa vê-se submergindo em culpa e fracassos, até que em um almoço de domingo, recebe uma notícia bombástica de sua mãe. A partir desse episódio, Rosa inicia uma redescoberta de si mesma.

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri, Sophia Valverde e Annalara Prates
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Direção de Fotografia: Pedro J. Márquez
Direção de Arte: Rita Faustini
Montagem: Rodrigo Menecucci
Produtores: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov, Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Produtor Associado: José Alvarenga Jr.
Produção: Gullane e Buriti Filmes
Coprodução: Globo Filmes
Distribuição: Imovision

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