ONGs locais trabalham diretamente no auxílio ao processo de adoção (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Manaus – Ter um bichinho de estimação é como ganhar um novo membro na família. Muitos, inclusive, definem como um reencontro e não uma escolha.

E, recentemente, em Manaus, eventos de adoção têm ganhado mais espaço e visibilidade, trazendo consigo novas maneiras de encarar a relação com os animais. Por isso, nós conversamos com algumas pessoas que tiveram a atitude de resgatar ou adotar animais da rua e representantes de ONGs que fizeram disso uma missão, descobrindo o que os fez seguir por esse caminho e quais lições aprenderam com seus amigos de quatro patas.

Consciência sobre a causa animal

Sheila Cavalcante Benjamin tem cinco gatos adotados e mais dois de cuidado compartilhado. Como muitas pessoas, ela conta que sempre teve e gostou de cuidar de bichos, mas, em 2012, um encontro muito especial com a gatinha Tapioca se transformou na sua primeira experiência com adoção.

“Ela veio de um resgate. Foi encontrada em uma feira com os irmãos. Na verdade, no começo, ela foi morar no meu antigo trabalho, mas era meio arisca e eu comecei levando para casa só nos fins de semana. Com o tempo, ela não pôde mais ficar no local e eu, que já tinha me afeiçoado ao animal, acabei levando para casa de vez”, relembra.

Segundo Sheila, essas e as outras experiências com os gatos que, hoje, estão na sua casa, criaram nela uma consciência sobre o cuidado com os bichos. “Eu acompanho o trabalho muito sério da ComPaixão Animal. Quando posso ajudar, me envolvo, nem que seja compartilhando informações nas redes sociais. Sempre tive bicho, sempre gostei. Mas foi tendo a experiência com os primeiros adotados que uma consciência foi sendo criada”, afirma.

Consciência que, passados cinco anos da primeira adoção, aguça ainda mais os sentidos de Sheila em relação à necessidade dos bichos. “Esta semana, estava saindo do trabalho e, no caminho, percebi uma movimentação estranha em uma área de mato e era um gatinho miando. O primeiro reflexo foi reduzir a velocidade e olhar. Eu acho que vi a cabeça, só que o carro que vinha atrás estava buzinando e eu segui adiante. Esse é o tipo de sensibilidade que, quando começa a conhecer a causa animal, você vai adquirindo. Eu não tenho mais condição de pegar nenhum gato, mas, independente disso, me chamou a atenção”, relata Sheila.

Um novo melhor amigo

No caso da advogada Letícia Pernambucano foi um pouco diferente. Ela tinha uma cachorra de raça que foi companheira da família inteira por dez anos e acabou morrendo. Acostumados com a presença do animal dentro de casa, eles decidiram ajudar um abrigo que estava começando as atividades.

A afinidade foi tanta que eles acabaram adotando, em um processo mais complicado que o normal. “Era uma cachorrinha mais velha e muito doente. Ela passou um mês no petshop, porque tinha carrapatos e o veterinário suspeitava de anemia, enfim, uma série de coisas. No início, foi muito difícil, ela estava muito debilitada. Foram cerca de três meses para ela ficar 100%”, conta a advogada.

Apesar dos pesares, ela conta que a Mancha — como foi batizada a cadelinha — se adaptou perfeitamente à família e, hoje, é a alegria da casa. “Ela foi se adaptando com o tempo. Todo mundo estranhou um pouco, no início, mas virou uma grande alegria para a família. E essa experiência criou uma conexão com outros abrigos também, foi bem positivo”, conta Letícia. “A gente sempre ajuda esse abrigo, onde adotamos ela, e outros também quando tem algum evento”, completa.

Sobre ter outros cachorros, ela afirma que são planos para o futuro, no entanto, o meio certamente deve ser a adoção. “Até gostaria de adotar outros, mas sei que a Mancha demanda muito da gente. Ela é muito agitada! Para ter uma ideia, tirar uma foto nossa com ela é muito difícil, porque ela não deixa”, entrega a advogada. “Não seria imediatamente, mas a experiência de adoção foi muito positiva”, garante.

Missão de vida

O produtor Luppi Pinheiro leva a ideia ainda mais além. Há cerca de 20 anos, ele se dispõe a resgatar animais de rua e dar a eles uma vida confortável, o que ele encara com uma missão. “Acho que tem pessoas tão ruins que abandonam os animais, principalmente quando já estão velhinhos, porque não querem ter trabalho. Eu pego, levo para casa, levo no veterinário e cuido até morrer. Tenho a sensação de que morrer só deve ser uma sensação muito ruim”, explica o produtor.

Ao longo destes 20 anos, as histórias são muitas. Mas, algumas ele faz questão de destacar para reforçar a prioridade que têm os animais em sua vida. “Uma vez, eu estava participando de uma campanha e me pediram para levar uma diretora para o hotel. Quando eu desci do local, tinha uma cachorra caída na rua, ensanguentada, com um corte na perna, sem conseguir andar. Eu fiquei tão alucinado que peguei a cachorra e levei embora. A Magrela — como foi chamada, depois — levou 11 pontos. Mas foi só depois que eu percebi que tinha deixado a diretora lá! Esqueci dela”, relembra, aos risos. “Mas, quando eu voltei, contei a história e ela elogiou a minha atitude, então, ficou tudo bem”, conta Luppi.

Atualmente, são sete cachorros que dividem a atenção e os cuidados de Luppi, que garante não se importar em gastar no que for preciso. Seu lema é: “apareceu para mim, a responsabilidade é minha”. “Acho que cachorro tem alma, e a gente faz parte da evolução deles. E acho que nada acontece de graça. Tenho um sonho de ter um canil bem grande para juntar todos os animais que vejo pela frente. Como não posso, pego os que estão morrendo”, afirma.

ComPaixão Animal

Há, também, quem transforme o cuidado com animais em um projeto oficial. Em atividade desde 2011, a ONG ComPaixão Animal, por exemplo, trabalha com a viabilização de adoções de animais. “Nós trabalhamos fundamentados em três pilares: a conscientização da população com a causa; a luta por políticas públicas e leis mais rígidas; e o apoio e orientação para quem resgata”, conta Saskya Canizo, vice-presidente da ONG.

O trabalho é criterioso, o que, segundo ela, busca evitar fraudes e outras ações ilícitas. “Tentamos dar um suporte, mas somos muito criteriosos sobre quem ajudar, porque tem gente que recebe doação e revende, muita gente que comete estelionato, entre outras coisas absurdas”, alerta a vice-presidente. “Nós indicamos que as pessoas procurem conhecer pessoalmente os animais, que se dirijam até a clínica, conheçam o trabalho antes de tudo”, completa.

Este ano, pela segunda vez, a ComPaixão Animal está desenvolvendo uma ação de recolhimento de doações, no Manaus Plaza Shopping (Av. Djalma Batista, 2.100, Chapada), para ajudar os animais resgatados. “Estamos deixando um baú, durante todo o mês de julho, para receber todo o tipo de doações, desde ração, toalhas, medicamentos, guias, coleiras, até materiais de limpeza, areia higiênica e afins”, afirma Saskya.

Sem Raça Definida

“A ONG é constituída por cinco pessoas, somos cinco amigas e alguns voluntários. Somos um grupo um pouco restrito, mas optamos por isso para manter a iniciativa entre pessoas que pensem da mesma forma sobre a causa e levem a sério”, define Marcela Cavalcanti, uma das responsáveis pela ONG Sem Raça Definida (@semracadefinida).

Criada em 2013, o grupo realiza o trabalho de castração, vacinação e fermifugação, garantindo a saúde do animal antes de uma doação. “É um trabalho de formiguinha, como a gente chama. Como não temos um local físico, a gente paga um hotelzinho ou arruma um lar temporário para o animal, até que ele fique 100% saudável”, afirma Marcela.

Segundo ela, a maior dificuldade ainda é conscientizar as pessoas sobre as responsabilidades atreladas a adoção, para que o animal não seja transformado em um objeto. “Nós nos juntamos por um pensamento de que ‘se você sente que está errado e pode fazer o certo, por que não?’. A gente fala muito sobre castração, sobre o controle populacional e somos totalmente contra a ideia de vender animais”, conta. “Isso está começando a mudar, mas é um processo lento. Por isso mesmo, tentamos conhecer melhor quem vai adotar. Nossa conduta não é para desestimular, mas tentamos mostrar o que é, de fato, ter um animal”.

Trabalhando de forma independente, Marcela afirma que todas as doações que a ONG recebe fazem diferença. Atualmente, elas tentam arrecadar fundos, também, com a venda de materiais de divulgação. “Cerca de 90% sai do nosso bolso, por isso, tudo o que recebemos faz uma diferença enorme. Participamos de um brechó e foi assim que arrecadamos uma grana para pagar um advogado, criar um CNPJ e oficializar a ONG. Hoje, vendemos camisas da ONG e materiais de divulgação”, afirma. Para quem quiser ajudar, a ONG recebe doações também pela conta: Bradesco: Ag 6019-4; CC7710-0; CNPJ: 25.224.143.0001-08.

Envolvida com a causa animal há tantos anos, ela afirma que a disseminação de informações têm sido uma aliada do trabalho desenvolvido pela Sem Raça Definida e outras ONGs, e as redes sociais têm um papel importante nisso. “Quanto mais acesso à informação as pessoas têm, mais fácil é conversar e conscientizá-las. Isso vem melhorando, mas ainda tem muito trabalho a ser feito, com certeza”, finaliza Marcela Cavalcanti.

O post Ações em prol de animais de rua mudam consciência sobre a causa animal, em Manaus apareceu primeiro em D24am.

Fonte: http://d24am.com/plus/comportamento/acoes-em-prol-de-animais-de-rua-mudam-consciencia-sobre-causa-animal-em-manaus/

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